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Este texto é uma tradução e adaptação de “Parkour History” de Dan Edwards. Para conferir o artigo original clique aqui. Por: Lucas Ribeiro de Lima.
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Tentar achar o momento exato em que o parkour nasceu não é uma tarefa fácil. Na verdade, talvez seja até impossível.  É algo tão difícil que a prática desafia a classificação. Hoje, possuí vários nomes em mais de uma língua: Le Parkour, Art of Movement, Freerunning, L’Art Du deplacement, isso citando somente alguns. E mesmo se colocarmos um nome, ainda existe um problema. A que esse nome se refere? É um esporte? Uma arte? Talvez uma filosofia? Ou mesmo uma disciplina?

A verdade é que não há consenso sobre isso. E – o mais difícil de tudo – Você não pode simplesmente ir e perguntar ao criador do parkour o porquê disso tudo não estar definido e organizado. O Parkour teve uma série de responsáveis influenciando seu desenvolvimento durante anos, séculos e até milênios. Baseou-se em muitas fontes, se inspirou em um pouco de tudo e bebeu de uma centena de diferentes copos, e ainda assim este processo não está encerrado.

Então aonde deveríamos começar a ter uma noção disso tudo? Não no início, por que somente Deus sabe aonde foi o início. Não no final, porque estamos longe de enxergá-lo. Parece que o melhor a fazer é começar em algum lugar no meio do caminho, e dar os devidos créditos a uma pequena cidade da França.

O Parkour e a França

Dame Du Lac - Lisses

Para o sul de Paris resta o sono, subúrbios de Evry, Sarceles e Lisses, lugares não muito diferentes das centenas de outras cidades satélites ao redor de Paris, exceto por um detalhe: Essas cidades eram a casa de um grupo de nove jovens, reconhecidos por terem sido influências na criação de algo chamado de L’Art Du Deplacement, na década de 80. No centro desse grupo estavam Yann Hnautra e David Belle, que guiaram a maioria dos primeiros treinos e, desde então, são reconhecidos como os criadores da arte. Esse grupo de jovens amigos formaram um grupo chamado Yamakasi, uma palavra de origem Lingala que significa ‘Homem Forte, Espírito Forte’, e por mais de uma década praticaram sua disciplina juntos, vistos com maus olhos pelas autoridades e julgados como “homens selvagens” pela população local.

Parcours du Combattant

Uma das influências que inspiraram os Yamakasi a explorar o meio urbano e natural de uma forma inteiramente nova ao longo de suas infâncias foi o pai de David Belle, Raymond Belle. Na verdade, o termo parkour (utilizado mais tarde) deve-se indiretamente a Raymond Belle, que apresentou o seu filho para os métodos de treinamento militares de Georges Hebert, um homem que tinha uma poderosa influência sobre o desenvolvimento da Educação Física na França, particularmente nos círculos militares. Georges Hebert criou o Parcours du Combattant; Que hoje chamamos de pista de obstáculos militar. Do parcours, que significa ‘percurso’, veio o nome Parkour, o qual David reconhece seu amigo Hubert Kounde como tendo criado.

David e seu pai Raymond Belle

O pai de David Belle, enquanto estava no Exército Francês, realizava seus treinos utilizando o Método Natural de Georges Hebert. O método de Hebert foi inspirado no condicionamento físico natural de povos indígenas da África, o que ainda é muito perceptível no parkour moderno. Muitos praticantes falam sobre a importância de libertar os instintos naturais, de livrar-se do condicionamento padrão e retornar a um estado inato, uma forma mais simples de movimentação que utiliza o corpo como um todo, e não grupos musculares isolados.

Entretanto, a influência do pai de David foi mais do que somente uma introdução ao Hebertismo. Ele também colocou em seu filho o que viria a se tornar mais tarde a filosofia do Parkour. Sebastian Foucan – que treinou com David Belle durante o período de criação do Parkour – conta do quanto Raymond Belle os encorajava a serem pessoas melhores, afirmando que com dedicação poderiam alcançar seus sonhos.

É importante reconhecer que Belle, apesar de fundamental para o desenvolvimento da prática, foi apenas um entre tantos outros que alimentaram a Arte do Movimento que estava sendo criada, incluindo Stephane Vigroux, Yahn Hnautra, David Malgogne Chau Belle-Dinh, Frederic Hnautra, entre outros, todos contribuíram com a arte em seu estágio embrionário. Stephane Vigroux, por exemplo, foi fundamental no desenvolvimento do movimento Saut de Chat (Hoje conhecido também como monkey ou king kong vault). E Yann Hnautra é responsável por trazer metodologia de treino e rigorosa disciplina ao grupo.

Foi quando decidiram desenvolver suas habilidades e levar a sério as brincadeiras de criança que os Yamakasi começaram a esboçar o que viria a ser, dentro de duas décadas, um movimento global. De crianças a brincar, a fim de aliviar seu tédio, eles se tornaram adolescentes com um objetivo em mente, um senso de propósito e inspiração vinda de muitas fontes, incluindo a filosofia do Taoísmo através das obras de Bruce Lee, as palhaçadas acrobáticas encontradas nos filmes de Jackie Chan, e talvez até o xamanismo urbano do homem selvagem de Paris, Dom Jean Haberey. Mas em sua essência, Parkour já era muito mais do que apenas um jogo de infância que simplesmente chegou à maturidade ao lado de seus criadores. Baseou-se no espírito corporal de funcionalidade existente em muitas culturas antigas e disciplinas mais velhas.

De acordo com um integrante do grupo, o início dos “big jumps” veio por volta dos quinze anos. Eles começaram a desenvolver e refinar um conjunto fundamental de movimentos: vaults, saltos, subidas, rolamentos. Ensinaram a si mesmos a ser atletas, movendo-se através de seu ambiente de uma forma nunca antes vista em um ambiente urbano. Obviamente, foram estes “big jumps” que chamaram a atenção da mídia e da população, uma vez que os praticantes de parkour são ótimos em esconder os melhores aspectos da prática.Yamakasi

No entanto, o parkour em si é visualmente deslumbrante, especialmente quando feito por aqueles com a força e técnica de Belle, Vigroux ou Yanm Hnautra, por exemplo. Segundas intenções seriam inevitáveis. Assim que a reputação dos primeiros praticantes se espalhou, mais pessoas vieram se juntar a eles para aprender, e além destes (o que já era premeditado), vieram aqueles que estavam interessados apenas no potencial monetário do parkour.

Showtime…

Em última análise, foi esse aumento de interesse no parkour que causou a primeira ‘divisão’ dentro da prática: Entre aqueles que abraçaram a oportunidade juntos (O filme Yamakasi: Les samouraïs des temps modernes, é uma referência famosa para este ponto da divisão) e aqueles que escolheram fazer seu próprio caminho, como David Belle.

Yamakasi - O filme

A repercussão depois do filme de Luc Besson não poderia ser pior: duas mortes foram atribuídas a ‘imitações’ do filme, e a maior parte do interesse não era pela arte propriamente dita, e sim pelo que viram no filme. Sebastien Foucan descreveu a atitude de grande parte do interesse pós-filme assim: “Depois do filme Yamakasi vimos um outro tipo de praticantes, era apenas: Pular, pular, pular, subir em telhados e pular, assim como no filme.”

Após a separação, parte dos primeiros praticantes (incluindo David Belle, Stephane Vigroux, Kazuma e Johann Vigroux) escolheram o termo Traceur para referirem a si mesmos: Traceur significa “bala” e foi escolhido por causa da ênfase de Belle e de seus contemporâneos em alcançar uma movimentação  direta, eficiente e rápida sobre qualquer terreno. Compreensivelmente, eles desenvolveram uma visão um pouco cética de muitos dos recém-chegados à disciplina; aqueles que mostravam um interesse genuíno a prática continuaram sendo bem recebidos, diferente daqueles que eram atraídos apenas pelo espetáculo e pela adrenalina

Independente das repercussões negativas que surgiram do Yamakasi, o filme também lançou o que era o L’art du deplacement (A Arte do Deslocamento) na consciência pública. A arte foi introduzida para o público britânico primeiramente em um anúncio da BBC do mesmo ano; apelidado de “Rush Hour”, David Belle estrelou como uma pessoa comum, que escolhe uma rota alternativa para casa, pelos telhados de Londres, a fim de evitar o grande fluxo de pessoas nas ruas abaixo. E desde então, vemos Belle envolvido em uma série de projetos comerciais, utilizando suas habilidades incríveis para entrar no mundo dos filmes de ação de grande sucesso, ganhando seu primeiro papel principal no B13 – 13º Distrito (Banlieue 13), de Luc Besson.

O Parkour tinha acabado de pisar no mercado global, e o negócio estava prestes a pegar.

Jump!

Apesar de o parkour ter sido exibido na mídia, ele ainda não havia sido explicado. Em algumas partes do mundo as pessoas ainda erroneamente referiam-se a disciplina como “Yamakasi”! O mal-entendido era frequente. Mas uma onda de empolgação havia se desenvolvido, um desejo de ver mais da dinâmica e dos prazeres que o parkour traz se iniciou. E pequenos grupos começaram a praticar o parkour a partir do pouco que já tinham visto dele.

No entanto, foi só em 2003 que uma visão exata da essência da arte foi liberada ao público, quando o canal britânico Channel 4 produziu umDocumentário Jump London documentário inovador e premiado, intitulado Jump London, com Foucan e os irmãos Vigroux mostrando suas habilidades em cima de uma desavisada ​​Londres. Este foi o ponto crítico. Como Johann Vigroux, Jerome Ben-Aoues, Stephane Vigroux e Seb Foucan transmitiram, além da beleza da pratica, todos os aspectos filosóficos do Parkour, proporcionaram ao público em geral uma base sobre o que era aquela nova e crescente disciplina.

A resposta foi surpreendente. Grupos de praticantes, também conhecidos como “clãs” ou “crews”, surgiram por toda parte. E o termo “free-running” infiltrou-se no vocabulário das pessoas. Devido em grande parte pelo fato de ter sido a “sede” do documentário Jump London, a capital da Inglaterra tornou-se rapidamente um foco da atividade e da comunidade de Freerunning.

Com as habilidades dos primeiros praticantes do Reino Unido se desenvolvendo, outro marco foi alcançado. Os britânicos se uniram com Foucan e Jerome Ben-Aoues para estrelar a sequência do primeiro documentário, que agora se chamaria Jump Britain. Ele foi ao ar em janeiro de 2005, e foi o estopim para o parkour ser reconhecido como um esporte/arte. Através dos documentários ‘Jump’ o parkour havia literalmente saltado para o cenário mundial.

O renascimento do movimento

O Parkour, como vimos, não é algo facilmente categorizado. Inevitavelmente,  com o crescimento das comunidades, as tentativas de definir e classificar a prática se tornaram algo comum. Por natureza, em uma arte que incentiva a liberdade de movimento e expressão individual, é difícil – senão impossível –  formalizar um sistema estruturado que a explica e ao mesmo tempo permite a abordagem subjetiva de seus praticantes. O assunto era ainda mais complicado pelo simples fato de que David Belle escolheu não liberar nenhuma sucinta e clara definição para as pessoas se basearem, e assim os debates e discussões cresceram e pioraram dentre as diferentes perspectivas que existiam.

Estes debates tendem a girar em torno do que constitui ou não o Parkour. Será que inclui acrobacias, ou isso é contra a filosofia central de eficiência adotada por Belle? É puramente uma disciplina prática para ser estudada como se fosse uma arte marcial, ou pode simplesmente ser feita em busca da diversão e liberdade que ele inevitavelmente traz? Em poucas palavras, girar ou não girar? Para muitos, essa é a questão…

No entanto, a visão de muitos da nova geração mostra que, apesar de o parkour ser um termo usado para libertar as pessoas da limitação, dos métodos convencionais de deslocamento e circulação, é apenas um termo. Sua visão é que, enquanto a comunicação requer o uso de alguma terminologia aceita, o que realmente está sendo comunicado é muito mais importante do que qualquer nome ou rótulo. Movimento é movimento, e é o domínio de seu próprio movimento que se deve buscar através da prática do Parkour.

O Parkour tem crescido muito além de suas raízes em Lisses, e agora é uma prática verdadeiramente global. É algo que está constantemente renascendo à medida que cada nova geração de praticantes começa a praticá-lo. Na verdade à medida que cada novo indivíduo encontra o parkour, a disciplina encontra uma maneira inteiramente nova e única de se expressar. É imprevisível, difícil de definir e extremamente difícil de entender plenamente. Ele está evoluindo o tempo todo, e isso é sempre saudável e natural. Que continue assim.

Risco ou Desafio?

Embora muitos praticantes negarem que parkour é um esporte radical, que não existem perigos ou riscos, o ato de correr, pular, e utilizar de uma variedade de estruturas urbanas com aterrissagens diretamente no concreto, é claro, traz consigo o potencial de lesão. Algumas das lesões mais comuns entre os praticantes que não se submetem a um condicionamento físico decente podem ser desde torções nos tornozelos até lesões por esforços repetitivos nas articulações.

No entanto, a excessiva tomada de riscos é executada em oposição à filosofia do parkour. “Uma das diferenças mais marcantes entre parkour e outros esportes chamados ‘extremos’ é que ele não está preocupado somente com a aquisição de habilidades físicas, mas também com a melhoria mental e bem-estar espiritual. Garantir que o progresso físico acompanhe o progresso mental é um dos principais objetivos de um bom traceur.” (Citado em Jones n.d., para. 22).

Os traceurs experientes não se engajam na atividade a fim de experimentar a adrenalina de tomar riscos excessivos. Em vez disso, eles vêem sua prática se desafiando para superar limitações e as restrições do medo e da inibição. O objetivo da funcionalidade completa em qualquer situação é fundamental, e no fim, conseguir este estado mental e físico é necessário para enfrentar e superar os desafios que são parte integrante da formação parkour.

Movendo-se rapidamente…

Então o que o futuro reserva? Quem poderia saber? Essa é a graça!

Em sua relativamente curta vida pública até a data, tem havido um enorme interesse de uma série de grandes organizações na prática. O Parkour saiu dos pequenos subúrbios de Paris para as ruas de Londres, e de lá, para o mundo inteiro. E agora está começando a se infiltrar em algumas das principais instituições de Educação de Londres. No início de 2006, o Conselho de Westminster recorreu aos serviços de dois instrutores, “Forrest” Mahop e Dan Edwards, da Parkour Generations, para ensinar a disciplina dentro de várias escolas e centros esportivos da comunidade. O projeto pioneiro foi um enorme sucesso e tem ido de vento em popa, com os conselhos locais de todo o país agora desesperados para reproduzir o que foi feito em Westminster.

Westminster também patrocinou a criação do Parkour Generations Academy no Moberly Sports Centre, no noroeste de Londres, que ocorre semanalmente e é executado por aqueles mesmos instrutores, com em média 60 alunos em cada classe. Certamente o parkour não pode mais ser visto como uma atividade sem reconhecimento.

O parkour ainda é relativamente jovem (ou tão velho quanto o ser humano, dependendo de como você vê). E para onde ele vai a partir de hoje está totalmente nas mãos das pessoas que o vivem, da comunidade praticantes e seus porta-vozes. O Parkour já foi envolvido em vários filmes de grande orçamento (mais recentemente no filme de James Bond), e está sendo usado de toda forma em comerciais de televisão, documentários, campanhas, ensaios de moda e shows ao vivo, a quantidade de praticantes está cada vez maior e em todo o mundo, do Brasil ao Japão, da Finlândia à Austrália, da Rússia ao Canadá.

Em resumo, o Parkour está aqui para ficar. Ou melhor, está aqui pra ir a todo lugar.

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